Maternidade, naturalmente!

Já conhecia a palavra “doula” antes de eu engravidar, mas, depois que me descobri grávida, li muito sobre parto humanizado, assisti a documentários, fui buscar informações sobre o que seria melhor para mim e para a minha filha. Como minha gravidez foi uma surpresa, tudo que a envolveu também o foi. Para que eu e meu marido pudéssemos vivenciar tudo isso juntos, decidimos que eu iria para Portugal.

Encontrei-me num país diferente, longe de minha família e amigos, e o que sempre me confortou foi a ideia de eu encontrar uma doula para me acompanhar no pré, parto e pós-parto. Tive um ótimo acompanhamento médico no Brasil até a 26ª semana de gestação e, ao chegar em Portugal, não pensava em encontrar um médico, mas sim, uma doula.

Encontrei uma pela internet, ela estava disposta a me ajudar, mas morava em um lugar distante de nós. No círculo de amizade de meu marido, um amigo indicou a doula que acompanhou sua esposa. Decidimos, então, marcar uma conversa para conhecê-la.

Como cheguei com a gravidez já um pouco avançada, fiquei apreensiva. Para minha alegria, a doula que fomos conhecer, a Cristina, passou-me uma segurança imensa e saí de lá confiante. Era ela que nos iria acompanhar. Logicamente, a gravidez é uma montanha-russa de sentimentos. Depois de nosso segundo encontro, precisava decidir como seria o parto. 

Diante de tantas possibilidades, o que eu queria para mim? Tive muitas dúvidas e inseguranças, já estava achando que não tinha feito a melhor escolha em me mudar para Portugal. Mas, sempre acompanhada da solicitude, do conhecimento e da doçura da Cristina, fui buscando em mim as respostas a tudo que me angustiava. Lembro-me de ser reticente inicialmente, não a procurava prontamente quando uma dúvida ou uma angústia surgiam, mas aos pouquinhos fui me abrindo às minhas necessidades e a Cristina também.

Após nosso terceiro encontro, decidi como queria meu parto, um parto domiciliar. Estava feliz e confiante, segura de todas as minhas escolhas. Foi então que minha bolsa rompeu com 36 semanas. Não era possível um parto domiciliar, tivemos de ir para o hospital e, por querer que meu marido me acompanhasse, a Cristina não estaria mais ao meu lado fisicamente. Meu parto foi bem diferente do que imaginei. Minha filha, a Nina, nasceu ótima, mas foi diagnosticada com icterícia, e nós ficamos internadas 4 dias. Foram dias difíceis. Da maternidade, mandava vídeos da Nina mamando para a Cristina, pois ela precisava mamar para fazer cocô e assim melhorar, além disso, tínhamos que fazer-lhe fototerapia.

Quase não tive apoio das enfermeiras, mas sempre tive o apoio da Cristina. Por ela, sabia que a Nina estava mamando e que os níveis de bilirrubina não eram assustadores. A Cristina me passava calma, mas permanecer lá, não me fazia bem e consequentemente a Nina também sentia minha angústia. Tentava deixá-la no berço de fototerapia, mas ela não ficava bem.

Tentamos dar-lhe xuxa, deixar que nosso braço lhe aconchegasse, mas ainda era difícil. Em uma das noites, liguei desesperada para a Cristina, não conseguia deixar a Nina na fototerapia, queria ter alta o mais breve possível, queria que a Nina melhorasse, mas ela só chorava e eu não sabia mais o que fazer. Tinha até chamado a enfermeira, mas ela não viera.

Então a Cristina me escutou e me falou para não insistir, tirar-lhe a roupinha e deixá-la pele a pele. Foi um conselho mágico, eu me acalmei, a Nina se acalmou, dormimos, ela mamou, fez cocô, tudo correu bem depois do pele a pele, inclusive, tivemos alta no dia seguinte.

Não sei como teria sido minha maternidade sem a Cristina, tudo que envolve essa parte de minha vida tem um dedinho dela. Confiei em seus conhecimentos, deixei de lado tudo que já haviam me falado sobre amamentação – “vai sangrar, vai doer, mas depois de um mês passa”, “não coma isso, aquilo, aquilo outro pois fará mal ao bebé”, “tome dois litros de água e mais dois litros de chá para ajudar o bebé a não ter cólicas” – e foi uma experiência maravilhosa, ou melhor, ainda é, pois vou amamentar a Nina até observarmos que já não faz mais sentido para nós.

Vivenciar a maternidade apenas eu, a Nina e meu marido, sempre tendo o apoio da Cristina foi incrível, e tenho certeza de que teria sido mais incrível se eu a tivesse ao meu lado durante o parto. Acho que toda mulher deveria ter a possibilidade de ter o apoio de uma doula e acho que nenhum hospital deveria barrar a sua entrada, isso é uma agressão à mulher.